David LaChapelle

Monday, December 10, 2012

Há um antigo ditado que diz que uma imagem captada pela lente duma máquina fotográfica nunca mente. Porém, nas mãos de David LaChapelle, essa imagem conta-nos certamente histórias que misturam os conceitos de realidade, verdade e imaginário.

LaChapelle é hoje, sem dúvida, um ícone da fotografia de moda, conhecido pelas suas imagens inusitadas, excêntricas, sensuais e irreverentes. O seu percurso académico, na Escola de Belas-Artes da Carolina do Norte, na Arts Student League e na Escola de Artes Visuais de Nova Iorque, proporcionou-lhe um conhecimento aprofundado ao nível das artes plásticas, história da arte, composição e cromatismo (bastante patente nas suas fotografias).

Andy Warhol

O seu primeiro trabalho profissional, enquanto fotógrafo, foi a cargo de Andy Warhol na Revista Interview. Uma das suas mais emblemáticas fotografias desta altura foi ao próprio Andy Warhol, mostrando, desde cedo, a sua predilecção pelos fortes contrastes, brilhos intensos e ambientes descontextualizados. Nesta imagem podemos ver o artista pop sentado em frente duma extensa fila de Bíblias Sagradas, o que certamente desperta curiosidade na mente do espectador. O que quer o fotógrafo transmitir? É esta a pergunta que se coloca sempre que se está perante um trabalho de LaChapelle. Esta imagem a preto e branco, com altos contrastes, pretende, por e simplesmente, relatar um dos segredos mais bem guardados de Andy Warhol: o facto de ser católico e ir à missa todos os Domingos. O trabalho de David LaChapelle não se prende apenas pela fotografia, mas também pelos seus videoclips; tendo já recebido vários prémios internacionais, entre os quais: Fotógrafo do Ano, pela VH1 Fashion Awards, em 1996, e Prémio de Melhor Documentário no Aspen Film Festival, devido à sua longa-metragem RIZE. Foi ainda classificado, a nível mundial, como a segundo fotógrafo mais importante pela American Photo Magazine.

 
 

A técnica, para além de única, é de tal forma irreverente e bizarra que acaba por se tornar extremamente fácil reconhecer o seu trabalho. As fotografias ultra saturadas, que misturam o glamour com o absurdo e o exagero de cores, formas, pessoas e situações, são claramente a sua assinatura. Para construir estas imagens inspira-se claramente em temáticas que vão desde a história da arte à cultura americana, o chamado The American Dream, entre outras.

Na sua série de fotografias Earth Laughs in Flowers é notável a procura pelo ínfimo pormenor e pela representação detalhada de naturezas mortas, à semelhança da pintura do século XVII. Contudo em Rebirth of Venus, é clara a inspiração de LaChapelle no trabalho do pintor renascentista Sandro Botticelli. Nesta imagem estão claramente representados os atributos da arte clássica greco-romana. Esta é uma forte influência no seu trabalho, nomeadamente no que diz respeito à procura pela perfei- ção, não apenas através dos esbeltos corpos dos seus modelos, mas também dos objectos que utiliza e dos ambientes que cria. Tudo é possível nas fotografias de LaChapelle, só o céu é o limite e a perfeição é a chave para alcançá-lo.


LaChapelle procura ainda representar situações que parecem sair de um filme de Hollywood, não tendo como objectivo fotografar espontaneamente o acaso, mas sim criá-lo, para depois o poder fotografar. O seu objectivo é, sobretudo, construir narrativas que coloquem os espectadores a pensar acerca do filme representado nos seus ‘frames’. O fotografo chegou mesmo a construir narrativas inspiradas em filmes como: Taxi Driver, Blade Runner e Scarface.

Todas as fotografias de LaChapelle contam uma história através dos seus personagens, que se encontram em situações bastante peculiares. Carregadas de humor, ironia e surrealismo, estas imagens transportam-nos para o imaginário do fotógrafo, que procura recheá-las de todo o tipo de acessórios e adereços que nunca são deixados ao acaso, constituindo portanto um elemento fulcral na sua composição fotográfica. As personagens encontram-se regularmente abaixadas, dobradas ou deitadas, porém nunca muito longe da objectiva, apenas longe o suficiente para que todo o seu corpo possa comunicar com o ambiente que as rodeia. É possível perceber a preferência pelos planos gerais e americanos em detri- mento dos retratos.

LaChapelle foi um dos pioneiros da fotografia digital, sendo por isso um dos melhores na área da manipulação da imagem. A cor é um dos elementos mais importantes do seu trabalho e também uma característica que o distingue. Não é apenas Jesus Cristo que emana cor e luz do seu corpo, mas todas as outras personagens que habitam cenários onde nada existe, ou é colocado por acaso. O importante no seu trabalho não é somente chocar, mas também mostrar toda uma mensagem por detrás de uma fotografia, que a princípio pode parecer confusa, porém rapidamente se consegue descodificar. O que ele projecta é uma imagem contemporânea da cultura pop, que tanto o influenciou no início da sua carreira.



Ao seu estilo combina ainda uma crítica ao método de comercialização dos produtos e procura inovar através de uma nova ideia, que transmite através das suas fotografias. A campanha para a marca Louis Vuitton, na qual o corpo nu da rapper Lil Kim exibe pequenos logótipos tatuados, é um marco bastante interessante no seu trabalho. Esta fotografia criou todo um novo conceito de utilização e divulgação de marcas no mercado, já que, em vez de promover um novo produto, por exemplo, uma roupa ou uma mala, mostra o corpo humano como ‘o novo produto’ e, por consequência, como espaço publicitário. A nudez é aqui assegurada como elemento de desejo e transporta para a marca essa mesma sensação e conotação - o que se deseja não é apenas a mulher, mas especialmente a marca Louis Vuitton.



O sexo e o erotismo são também temáticas facilmente perceptíveis no seu trabalho, mas não de um forma gratuita e explícita, como no trabalho de Terry Richardson. LaChapelle usa a nudez como uma componente estética nas suas imagens. O seu propósito não é santificar o erotismo para satisfazer a curiosidade dos espectadores e dos fãs, mas sim libertar a representação do corpo humano dos contextos pornográficos, das interpretações erróneas e da inevitável associação da nudez ao pecado, assim como a associação da luxúria e da paixão à gratificação sexual, abuso e humilhação. Isto é patente em algumas fotografias da modelo Pamela Anderson. O fotógrafo não a retrata sempre como um aspecto fútil da cultura americana, por vezes coloca-a em situações em que é ela que assume o controlo da sua própria imagem, ao pisar literalmente a sua fotografia de nadadora-salvadora na série televisiva Baywatch.



LaChapelle é assim um dos grandes fotógrafos de personalidades internacionais, porém a ligação que estabelece com estes famosos vai muito além do que outros podem e conseguem fazer. O que ele cria nas suas imagens são histórias que envolvem o modelo e procuram, na maior parte das vezes, glorificá-lo, como é o caso do seu trabalho com o cantor Michael Jackson. Outras vezes, o que ele procura mostrar é o modo como esta personalidade é vista, não apenas por ele, mas por todos nós, a nível mundial, através do modo como a veste (ou despe) e do ambiente que cria em torno dela. Um trabalho que exige perfeccionismo e um enorme controlo de todas as peças que ajudam a montar o puzzle. A confusão é criada para que depois o espectador possa descodificar a história de vida da personagem. Uma das suas fotografias mais emblemáticas é, sem dúvida, Heaven to Hell, na qual Kurt Cobain jaz morto nos braços da sua mulher, Courtney Love. Esta é uma imagem forte e poderosa, uma Pietá dos tempos modernos que conta a história do suicídio do vocalista e guitarrista dos Nirvana. Há aqui a tentativa de reproduzir uma ideia de Paz versus Caos, em que, apesar de nos ser dada a felicidade, facilmente a conseguimos transformar num inferno. Para representar esta ideia, LaChapelle usa a cena de morte mais famosa da história: Maria com Jesus morto nos braços, após ter sido retirado da cruz, pedindo aos céus que o resuscite. Nesta imagem há um enorme sentimento de serenidade e resignação nos rostos dos modelos. Uma calma perfeição de quem encontra o paraíso, após percorrer o inferno.


Esta ideia de paz e destruição/morte é ampliada nas suas séries Destructions e Ascension, onde os modelos surgem perfeitamente impecáveis após terem falecido num acidente de viação, num desastre de avião, num terramoto, etc. A modelo encontra-se em paz, ou por vezes incrédula, num cenário completamente destruído.




É fantástico, e ao mesmo tempo assustador, a forma como LaChapelle consegue mostrar a vida inteira de uma personalidade ou recriar todo um tema, única e exclusivamente através de uma imagem. As suas fotografias são, como qualquer pintura do renascimento clássico, verdadeiras obras de arte, com um intuito muito semelhante: doar aos que nelas habi- tam algo que ambicionam, a vida eterna.

With Love,
Rute Pinto.

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